Agora estamos no Medium

 

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Amigos, família e seguidores.

Nosso blog em 2019 voltará com força.

Querem dicas mensais de viagem, histórias e muita aventura?

Tudo que a gente já escreveu agora se encontra em outra plataforma. Esperamos todxs vocês lá no Medium

O trem de Salvador

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A primeira praia que vi na vida foi na Bahia, mas especificamente em ilhéus. Na minha infância meus avós mineiros, por parte de pai, se apaixonaram pela Bahia e montaram um restaurante em frente à praia. Toda a família costumava ir lá nas férias. Está guardado nas minhas memórias afetivas mais gostosas aquele primeiro banho de mar.

O tempo passou, voltei a Salvador a trabalho e agora a passeio e minha ligação com a cidade só cresce. Se você é preto e vai para Salvador se sente em casa em cada esquina. Cada pedra daquele lugar relembra a história do povo negro no nosso país. A riqueza cultural, as religiosidades o axé por todo o lado fez a gente se sentir em casa, na nossa casa ancestral.

Passamos o ano novo em Guaibim (litoral da Bahia) e depois partimos para Salvador, nosso voo saia de lá. Em três dias pela cidade fomos ao Pelourinho, Rio Vermelho, Farol da Barra, Igreja do Senhor do Bonfim (na primeira sexta do ano), Feira de São Joaquim (compramos farinha e dendê), andamos de busão, trem, comemos acarajé, camarão, pamonha baiana, tomamos cravinho (melhor cachaça artesanal), abará, vatapá, peixe frito. Comemos, comemos e comemos.

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O sagrado africano é corpo, alma e espirito.

O rolé mais doido foi pegar o trem na estação calçada. Por 50 centavos entramos no trem, aquele calor abafado de Salvador sem nenhum ar e muita gente. E pelas janelas observamos a cidade fora dos cartões postais, passando pelas zonas periféricas, as favelas, à margem, nua, dura e bonita.

E nesse vai e vem de pessoas. Gente vendendo de tudo, de velho a adolescente. É louco as semelhanças que vemos com o Rio, com o Brasil colonial, com os imigrantes senegalenses em Madrid, com os vendedores ambulantes na Angola. O povo negro da diáspora e da áfrica vem resistindo na rua. Vendendo qualquer coisa que está a sua mão. Com capacidade incrível de oratória e de se virar diante das adversidades.

Do outro lado, a gente vê os de sempre sangrando, tendo que vender o café para comer o almoço, e vender o almoço pelo café. Foi à frase que mais nos marcou no trem. De olherada escutamos uma conversar entre uma vendedora de salgados e um passageiro.

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Eles falavam sobre os preços altos dos alimentos, de como o pobre trabalhava para comer. Até que a mulher perguntou se ele iria votar. Ele disse que não ia sair de casa, pegar busão e se cansar para votar em ladrão. Ela o questionou sobre o passaporte. “Se não votar não consegue tirar o passaporte”. Ele riu e disse que passaporte de pobre está enterrado no chão. Ela insistiu dizendo que era melhor votar para tirar o passaporte caso aparecesse uma oportunidade de viajar.

Achei tão triste e ao mesmo tempo incrível aquele papo. Aquela mulher que vendia salgado no trem por um real, estava preocupada em votar por causa do passaporte. Ali dentro dela tinha o sonho de querer mais do que a vida lhe deu, um sonho que não morria, estava vivo apesar da própria vida. Ali era o Brasil mais profundo.

Fora dali também encontramos gente preta que tem feito trabalhos incríveis na arte, cultura, comunicação, tecnologia e empreendedorismo. Salvador é um puta polo criativo do nosso país.

Um salve para Annia Rizia, uma jovem artista plástica que está pintando quadros sobre o genocídio do povo negro da forma mais revoltosa e bela que alguém poderia fazer. A produtora Naymare Azevedo que vai abrir em fevereiro o mercado (espaço coletivo) no Rio Vermelho de frente a praia. A galera do Gambiarra Coletiva que tem um coworking com loja colaborativa e bistrô na Barra. A cooperativa de artistas independentes, Atelier Arte Naîf Tribo do Sol, localizada no Pelourinho onde você encontra trabalhos únicos e não réplica. A galera da Mídia Étnica, Afrobox, Vale do Dendê, Tia Má, Desabafo Social e tantos outros baianos que inspiram a gente!

Salve a Bahia!

Dublin, Irlanda.

Dublin, Irlanda. 
Por: Raull Santiago

Salve galera!
Hoje completam duas semanas que estou em Dublin, na Irlanda, junto com meu filho mais novo e minha companheira Jully Souza.

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Nesta postagem, vou resumir um pouco das vivências a partir do “se virar” de um morador do Complexo do Alemão aqui nas terras gringas, em pleno inverno europeu.

Já vou começar dizendo que venta, faz frio, chove, até nevou certo dia, inclusive neste momento em que escrevo o texto, há uma intensa rajada de vento sinistra, que faz um barulho muito alto. Mas é incrível demais a experiência.

Apensar de parecer tenso, rapidamente você aprende a lidar com isso, se manter aquecido/a e viver as ruas e paisagens incríveis deste lugar sensacional.

Vou seguir com a postagem por tópicos, falando sobre:
A clima em Dublin / transporte público / internet / tipos de comida / alguns rolés & / informações interessantes.

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— O CLIMA:
Como falei, coloquei o pé no frio há duas semanas, quando vim para estudar inglês por dois meses. Neste período de inverno, a maior temperatura que pegamos foi 11 graus e a menor, 0 graus. É chapa quente! -ou fria- nesse caso. A questão principal aqui é o vento constante e gelado, que o tempo inteiro nos acompanha.

Mas há aquele “se vira nos 30” sempre, né? E aqui na Irlanda não diferente… Existe uma empresa chamada Primark, onde o seu seguimento de roupas, as lojas PENNEYS são o verdadeiro point de quem precisa se equipar para o frio. É este lugar que vão te recomendar ou te levar para comprar seu “kit de sobrevivência”. É o referencia geral, tanto para nativos/as do país, quanto para pessoas que vivem aqui.

Na moral, a rede de lojas PENNEYS é incrível. Eu NUNCA vi tanta roupa de qualidade e com preço incrivelmente barato, mesmo convertendo o euro para real. É uma rede gigante, com peças lindas e de qualidade. Todo brasileiro/a que chega aqui, passa lá para comprar suas roupas de frio (casaco, sobretudo, cachecol, meia grossa, luva, tênis, bota, capa de chuva e etc.).

Obs: cachecol ou casacos de gola alta são companheiros fieis para proteção da garganta, porém, planeje suas roupas levando em consideração peças que irão te esquentar no frio, mas que possam ser tiraras dentro de estabelecimentos, já que em todos os locais tem aquecimento e você pode ficar com um pouquinho de calor.

No inverno há pocas horas de luz do dia. As vezes somente as nove da manhã é que clareia, enquanto por volta das 16h já está anoitecendo. Ainda não me acostumei com essa parada.

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— TRANSPORTE PÚBLICO.
Faça um cartão “Leap card”: um cartão pré-pago que é uma espécie de Bilhete Único local. É bem complicado pagar com dinheiro em espécie, então já chegue fazendo seu cartão que isso facilitará muito sua vida.

A maioria dos transportes públicos funciona por cartão, que você adquire em mercados, lojas diversas ou em máquinas que ficam nas estações de trem ou ônibus. Estamos usando o Leap card desde que chegamos.

Como usar?
No busão: Você entra pela porta da frente com o cartão na mão e tem que dizer ao motorista para onde vai, pois existe um preço geral de um ponto final ao outro, mas se você for ficar antes disso, não paga o valor integral, paga menos. O motorista vai marcar o local onde você terá dito que irá descer e você aproxima o cartão no local indicado.

No trem: o mesmo vale para o trem, a diferença é que no transporte ferroviário você passa seu cartão ao entrar na estação e depois quando sai, para computar o valor da distância.

— INTERNET:
A partir de 20 euros você consegue adquirir um chip de internet com boa qualidade, para o período de 15 dias ou um mês, por exemplo.

Porém, não vamos dar mole né… afinal, por aqui wi-fi reina!
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No trem e no ônibus tem wi-fi (o do busão é melhor), assim como na maioria das estabelecimentos, onde no máximo, te pedem um cadastro por email, ou login através de alguma rede social para acessar uma internet super rápida.

É suave. Online direto!

— TIPOS DE COMIDA.
Comer é tranquilo se você cai pra dentro de novidades, podendo experimentar comidas de diferentes partes do mundo, mas caso não, brasileiros rapidamente podem te dar dicas de locais bons, baratos e próximas a nossa culinária.

Também há muito Fast food (Mc Donalds, Burguer King, Subway) entre outros.

Porém, aconselho restaurantes italianos, por exemplo, onde você pode comer diferentes tipos de massas, em farta quantidade, por preço juntos. O mesmo vale para as comidas do oriente médio, sempre fartas de carne, frango e etc, como Kebabs.

Porém, nada melhor do que fazer aquela comprinha esperta e comer em casa, além de comprar pães e produtos a gosto, para fazer seu sanduba esperto. Muito comum por aqui a galera levar seu lanche no dia a dia de estudos e trabalho.

Nas grandes redes de super mercado, como o SuperValu, praticamente todos os produtos são embalados, desde legumes, carnes, ou qualquer coisa que posamos imaginar, isso estará em alguma prateleira e raramente você irá a padaria, ou ao açougue dos mercados, pedir para cortar alguma coisa na hora.

Porém, quem é rataria, fuça as paradas e encontra nossos “Mercadão de Madureira” da vida, né? Então, há mercados árabes, indianos, que sempre vendem quase a mesma variedade de produtos, mas com um preço menor. O que é importante, para quem quer preparar boa comida e poupar grana.

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— ALGUNS ROLÉS:
Dublin tem centenas de parques públicos, vastas áreas verdes com lagos, pássaros, patos, brinquedo para as crianças, pista para bicicleta, caminhada e etc. Rolé nestes parque é parte da rotina da galera, principalmente aos finais de semana.

Há muitas relíquias da Irlanda aqui em Dublin, que você pode conhecer gratuitamente ou pagando valores super baixos, como os parques, castelos e outros.
Aqui nesse link tem coisas bem interessantes para se fazer de graça, (já fui em tudo): https://viajandobemebarato.com.br/…/europa-barata-10-coisas…

— INFORMAÇÕES INTERESSANTES:
* Há muitos brasileiros/as em Dublin. Em alguma situação que não esteja conseguindo desenrolar, pergunte as pessoas passando se alguém ali é do Brasil e que possa te ajudar (sempre tem alguém).

* A moradia por aqui é um pouco cara. Então é comum termos várias pessoas morando em uma mesma casa, como um hostel, uma república e equivalentes.

*Salmão é muito barato por aqui. A felicidade de quem ama tanto quanto eu.

*Nos últimos 5 anos, a quantidade de brasileiros/as que vieram para a Irlanda fazer intercâmbio cresceu mais de 60%. A vantagem do país europeu é o padrão de ensino e de vida da Europa, além do fácil deslocamento para outros países do continente europeu. Tipo, é possível ir e voltar a Paris por € 50,00. A Irlanda também permite ao intercambista trabalhar enquanto estuda, o que é uma grande vantagem.

* Há vários blogs escritos por brasileiros que moram em Dublin, com várias dicas para as mais variadas situações, além de grupos no facebook e whatsapp, para ajuda coletiva, troca de alimentos, dentre outras coisas.

E ó que irado. Iniciamos essa viagem juntinho com o Marcelo Magano e a Thamyra Thâmara de Araújo. Na foto do nosso grupo, abaixo, estávamos no aeroporto internacional do RJ, iniciando a trip aventura.

Logo menos tô de volta no Complexo do Alemão. ✊🏽✈️

#NósporNós
#FavelaSempre
#FAVELADOSpeloMUNDO🌍🌎🌏

Turismo na Angola como é?

 

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Quando resolvemos ir para Angola sentimos muita dificuldade em encontrar informações turísticas na internet. A maioria das coisas que aprendemos, antes de viajar, foi com amigos que moravam em Luanda ou já tinha visitado o país. Por isso resolvemos reunir aqui informações básicas. O que você precisa saber antes de viajar para Angola?

Bisu de favelado | turismo na Angola 😀

DINHEIRO 💰

Moeda local se chama kwanza. Não encontramos ela para comprar em casas de câmbio no Brasil. E nem trocam reais por Kwanzas em Angola. Então a melhor opção é você levar dólar e trocar quando chegar lá.
Nas casas de câmbio oficiais o valor da troca de dólar é bem baixo. Em todo o país é possível trocar dólares nas ruas. Não é legal, mas todo mundo faz e você não será preso por isso.
Nas ruas você consegue trocar 100 dólares por 42 a 45 mil AKZ. Tem que saber negociar.
Tem um aplicativo site chamado Kinguilahoje.com que mostra qual a cotação do dólar na rua. Precisa dessa informação na hora de trocar para não acabar perdendo dinheiro.
Além disso, a nota de 100 dólares com a “faixa azul” vale mais que as notas antigas. Coisas de Angola.

TRANSPORTE 🚍

Não tem ônibus, nem trem, nem metrô circulando em pequenos trajetos pela cidade.
Para andar dentro das províncias você pode recorrer ao táxi coletivo ou candonga (tipo uma van) ou as kupapatas (mototaxi). Não existe transporte público no país. O transporte é privado (ou seja não é do governo), nem regularizado. Mas é usado pelo moradores diariamente, vai para todos os lados e quem tá acostumado a andar de busao vai tirar de letra.
Já para viajar entre as províncias a empresa mais conhecida que faz grandes trajetos é a Macon. Uma passagem deve custar no máximo 50 reais ou (por volta de 6mil AKZ)
A estrutura do ônibus é ok quanto a segurança mas não possui banheiro dentro. Cuidado para não ter piriri!

CUIDADOS COM A SAÚDE 🤔

Água em Angola é complicado.
Em alguns lugares a água simplesmente não chega nas torneiras. Muitas casas tem gerador para garantir água e luz. Além disso, você não pode beber água da torneira ou usar para fazer comida porque a água não é de qualidade. Então só beba água potável e ande com sua garrafa por todo lado.

Ps: se pedir copo com gelo, certifique que o gelo é de água potável.

Não precisa ficar neurótico, mas não saia comendo qualquer coisa na rua e lave com água potável as frutas antes de comer. Por causa da falta de saneamento básico em alguns lugares você pode acabar pegando a febre tifoide que resumindo é uma infecção alimentar grave.

Use repelente todos os dias. Tem casos de paludismo e malária

SEGURANÇA 🚨

E’ comparação lao Brasil Angola é bem tranquilo. Os casos de roubo à mão armada são bem pequenos.
Só não sair ostentando celular por aí (cuidados normais).

TURISMO 🏝

Angola não é um país super turístico. Conseguir tirar visto para conhecer o país é bem burocrático (fiz um vídeo falando sobre isso no canal do #youtube @faveladospelomundo).
Mas acredito que nos próximos anos a tendência é maior abertura para o turismo e incentivo.
Por causa disso, a maioria dos serviços de hospedagem, transporte privado e restaurante são bem caros e com poucas opções.

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Lugares para conhecer em Luanda:
👉🏿 Museu da Escravatura
👉🏿 Museu de Antropologia
👉🏿 Fortaleza de São Miguel
👉🏿 Chicala ( tem vários restaurantes para comer comida típica e barata)
👉🏿 Centro Cultural Brasil e Angola
👉🏿 São Paulo (uma feira que vende de tudo )
👉🏿 kikolo (feira com ótimos preços para quem deseja comprar tecido africano)
👉🏿 Espaço Luanda Arte
👉🏿 Miradouro da Lua
👉🏿 Pizarria Capriciossa
👉🏿 Bar de Luanda (no centro)
👉🏿 Elinga (casa de festas e teatro)
👉🏿 Ilha do Mussulo
👍🏿 Melhor forma de se hospedar é pela rede Diaspora.Black ou pelo Airbnb. Hotéis são bem caros.

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Lugares para conhecer em Benguela:
👉🏿 Centro da cidade (bem verde e ar interiorano)
👉🏿 El Flamingo ( cafeteria em frente ao Jardim no centro )
👉🏿 Bar Tchilunga (melhor comida e preço | perto da praia Morena )
👉🏿 Artesanatos em frente à praia Morena
👉🏿Vargas ( Catumbela )
👉🏿 Marisqueira Sani ( Benguela )
👉🏿 Tchirinawa ( discoteca Benguela)
👉🏿 Benamor Restaurante ( Benguela)
👉🏿 Bar dos chiquitos ( bar cultural com exposição fotográfica e pequena galeria de arte)
👉🏿 Praia da Caotinha
👉🏿 Baia Azul
👉🏿 Lobito (bairro ao lado)
👉🏿 Praia da Restinga (em Lobito)
👍🏿 Tem opção de hospedagem pelo couchsurfing e hotéis por volta de 60 a 80 reais (8 a 10mil AKZ)

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Lugares para Conhecer em Lubango:
👉🏿 Tundavala
👉🏿 Miradouro da Serra da Leba
👉🏿 Cascata da Huila
👉🏿 Pastelaria Art Doce (no centro da cidade)
👉🏿 Cristo Rei
👉🏿 Aldeia da Mumuilas
👉🏿 Supermecado Shoprite (opção mais barata para comprar biscoito, doces, água, cerveja, vinho e etc. Lá também vende comida pronta pesada na balança fica mais barato do que comer em restaurante, já que as opções são bem pequenas.
👍🏿 A maioria dos lugares não tem como conhecer sem carro privado. Você pode fechar no hotel alguém para te levar, muitos deles fazem o serviços de turismo.
👍🏿 Vandjullodge foi a opção mais barata que encontramos. Tinha internet, piscina, café da manhã e quarto de casal por 80 reais.

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Lugares para conhecer em Namibe:
👉🏿 Praia Amélia e Praia da escadinha
👉🏿 Deserto localizado na Tombua.
👉🏿 Planta Welwitschia Mirabilis, rara que só existe nessa parte do planeta e vive até mil anos.
👉🏿 Parque Nacional do Iona (precisa contratar um guia numa agência de turismo. Mas como quase não existem agências assim. Pode fechar no hotel alguém para te levar por 10 a 20 mil kwanzas.
👍🏿 Pensão Esplendor localizado na entrada da cidade. A mais barata que encontramos por 5 mil k ( por volta de 40 reais quarto de casal).

O melhor de Angola são os Angolanos, sua cultura e suas histórias. Acreditamos no turismo com afeto e humor.

Angola que país é esse?

– BOM DIA .
– OBRIGADO!
ANGOLA QUE PAÍS É ESSE ?

 

Um rastafari de origem khoisan (população original da região) me disse que não gosta muito de ir ao ocidente, que costuma sentir por lá um ar de superioridade.
Sabe aquela coisa de “essa é a coisa certa” “é dessa forma que se faz”? Não dá para pensar assim em África.

Cada país e povo tem seu jeito próprio de fazer, e as referências aqui na maioria das vezes passam bem longe do ocidente. Por mais que existam semelhanças entre o povo brasileiro e o povo angolano, ainda somos bem diferentes.

Na verdade não existe de fato um povo angolano com uma característica única. Existem vários povos, os de origem bantu, como os kimbundu (conhecidos por ser mais astutos), os umbundu (mais trabalhadores), os bakongo (mestres nos negócios) e as outras várias etnias como os hereros, kiokos, entre outros.

Ir para Angola é saber que você pode pegar um ônibus de viagem entre as províncias e no meio do caminho (no meio do nada) o motorista para e diz: “podem ir ao banheiro”. O banheiro na verdade é o próprio mato. É encontrar churrasco de galinha em cada parada da viagem (e só isso). É ver que não é preciso ir ao shopping para comprar nada, porque na rua se vende praticamente tudo. É ter que pegar varias candongas (vans) em Luanda para conseguir conhecer a cidade, com um trânsito louco e os candongueiros (motoristas das vans) disputando entre si os passageiros.

 

Ir para Angola é ver os kupapatas (mototaxi) serem o transporte principal que circula toda a província de Benguela. Não tem uber, não tem fast food em cada esquina, não tem wifi em todos os lugares (internet em casa é muito caro) e em muitos lugares é difícil ter água saindo da torneira diariamente.

Por outro lado, a capital da Angola, Luanda, é a cidade mais cara do mundo. Lá é quase impossível encontrar hospedagem por menos de 100 reais. E você pode transitar entre a vida de um mochileiro fudido e um rico. Se de um lado você vê musseques (favelas) sem asfalto, água e luz, do outro você pode ver mansões e shoppings cheios de famílias pretas ricas e jovens usando Supreme, Nike e Adidas. Já a classe média cresce timidamente.

Nas ruas você vai encontrar um povo simpático, sorrindo e dizendo obrigada a cada bom dia. Vai ouvir kuduro, kizomba e muita música brasileira. Vai descobrir que eles gostam muito dos brasileiros e preferem filmes legendados em português do Brasil a português de Portugal.
E que eles assistem muita Record e morrem de medo do Rio de Janeiro . A propósito, tem Igreja Universal em todos os lugares e muita, muita festa.

Para te situar no tempo, Angola viveu anos em guerra civil e só em 2002 assinaram a paz. É ainda muito recente, mas o país já caminha para uma mudança com um novo presidente (depois do ex-presidente ter estado mais de 30 anos no poder). Nas ruas a gente escuta as pessoas falando sobre esperança e desejando um país com menos pobreza.

A memória da guerra ainda está na cabeça dos mais velhos e nas histórias passadas de pai para filho. O medo do passado ainda paira, mas o sorriso e a alegria de um povo que adora festa é maior que qualquer passado.

Mas, vejamos, tudo isso são meras impressões. Eu acho que a melhor forma de conhecer um lugar é através das pessoas que ali vivem.
Três pessoas nos marcaram em Angola. E é sobre essas histórias que quero falar.

Em Luanda conhecemos Papel, o motorista e também responsável por assuntos administrativos (vistos, imigração etc) da empresa de um fotógrafo brasileiro em Angola. Além de ser um empreendedor do seu próprio negócio: uma casa de festas num terreno bem grande que tem tudo para virar também um restaurante e um hostel.

Fomos recebidos por ele assim que chegamos no aeroporto, um negão de 2 metros e meio, e o amor foi à primeira vista. Papel é um homem de meia idade que na juventude foi jogador de basquete e lutou na guerra. Por causa do esporte e da sorte (como ele mesmo diz) ele sobreviveu entre tantos amigos que morreram. Com ele conhecemos a cidade de Luanda de verdade, fomos nas feiras e nas favelas. Kikolo é uma dessas conhecidas que vendem de tudooo. Tudo mesmo! De coração de boi a cabelo do Brasil.

Fomos a chicala e comemos mufete, um prato típico com peixe, feijão de palma e banana da terra. Tomamos cerveja barata (aliás, cerveja e vinho é muito barato em Angola), fomos ao Museu da Escravatura e à fortaleza de São Miguel, que conta toda a história do país desde o tempo colonial – passando pela guerra civil e a história dos partidos – até os tempos atuais.

Com Papel aprendemos que o povo Angolano tem muitas tradições e uma dessas tradições é o alambamento. Se você é homem e quer se casar com sua namorada, além de fazer o pedido à família, você vai receber do pai da noiva uma série de pedidos, coisas que precisam ser compradas. Geralmente se pede cervejas, carnes, roupas. Tem gente que lista até moto. Pobres, ricos, jovens e velhos seguem a tradição do alambamento. E caso você se separe ou fique viúvo, tem que devolver tudo que ganhou de volta.
(O alambamento é bem interessante e deve ser estudado).

Papel nos contou as histórias do tempo da guerra, falou que a guerra não era do povo angolano. Falou das frustrações do povo com a política e do medo de reivindicar direitos. Falou também da força do povo em resistir e da criatividade de se reinventar todos os dias.

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Em Benguela conhecemos a Mufana. Uma jovem de 23 anos, fotógrafa, que nos recebeu em sua casa pelo couchsurfing junto com sua família. Casa grande, família grande, 10 irmãos e muitos primos. Típica família angolana. Mufana é filha de um rastafari, que trabalhou nos assuntos administrativos na época da guerra e atualmente trabalha para o governo, e de uma mãe que também lutou na guerra.

Ela, junto com mais dois amigos, montou um studio que presta serviços de fotografia e vídeo para casamentos e empresas comerciais. Mufana é de origem tchokwe e ovimbundo e nos explicou como são as tradições para as mulheres. Mulheres sem marido e sem filhos são discriminadas na sociedade. Ela é uma mulher separada com um filho, com um mundo pela frente e um sonho de sair viajando nele inteiro. Ela nos ensinou sobre coragem para romper com os padrões.

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Benguela é uma cidade muito diferente de Luanda. Mais limpa, mais segura, parece uma cidade charmosa do interior, com bares e cafés bem fixe (legais) por todo o lado.

Em Benguela, você pode conhecer a praia da Caotinha, os artesanatos que ficam na frente da praia Morena, comer muamba de galinha, calulu de peixe, tomar a cerveja N’angola e ir a Lobito – a cidade ao lado (meia hora de distância), onde tem a praia da Restinga (lindaaaa demais!)

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Em Lubango conhecemos o Jeje, um jovem mestiço de 29 anos, pai português e mãe angolana. Ele trabalha com construção civil e eletricidade no hotel que ficamos hospedados. Se ofereceu para ser nosso guia. Nos levou para vários passeios turísticos em que não teríamos como chegar de transporte público. Conhecemos o miradouro da Serra da Leba, a Tundavala, a cachoeira da Huila, o Cristo Rei e a as Mumuilas, comunidade tradicional do sul da Angola.
Jeje nos contou da sua vida, do seu casamento e falou que a tradição do alambamento é mais dos negros e que os mestiços seguem mais os costumes do Brasil. Falou que tem um sonho de conhecer o Brasil e ficar com uma mulher brasileira. Segundo ele, falamos e fazemos sexo sem pudor.
Jeje tinha muitas certezas sobre o Brasil. Para ele, as novelas e filmes brasileiros ensinaram aos africanos sobre “essa coisa de gay”, “no meio do mato não tem gay nem lésbica”. Passamos a tarde juntos conversando, cada um explicando o mundo à sua maneira. Ao final, comemos churrasco de galinha, batata e cerveja e agradecemos pelo passeio.

Angola é Complexo?
Sim.
Mas o melhor de Angola são os angolanos.

São Luís , Ilha do Amor

São Luís, conhecido como ilha do amor, é a capital do estado do Maranhão.

Viajar é a  melhor escola de geografia que todos deveriam ter . 

O segundo estado com maior número de pessoas negras no Brasil.
Imagina só como eu fiquei? Igual pinto no lixo.
Além da comunidade negra, a comunidade indígena é bastante presente, são em torno de 38.831 índios de diversas etnias. O Maranhão é um lugar de grande riqueza cultural,  e sua capital não deixa a desejar com as famosas Festa do Bumba Meu Boi, Festa do Divino e Tambor de Crioula.
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Esse é um roteiro de três dias para quem vai ficar apenas na capital.
As praias nordestinas são bem diferentes das praias do Rio. São quentes e na maioria da vezes rasas. Em São Luís é possível ficar de bunda pro ar deitada e sentido as ondas bater em suas costas. Maravilhoso pra pensar na vida enquanto pega sol no bumbum 😉
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De noite e pela manhã (bem cedo) a maré fica alta e a faixa de terra diminui.Já a parti de meio dia  o mar vai se encolhendo e a faixa de areia fica bem grande. Até carro  passa pela areia do mar,  entre o calçadão e as águas.
Os bares em frente a praia são bem populares é possível ver muita família e gente local. Toda hora passa alguém vendendo ovo de codorna, camarão e castanha muito mais barato que o cardápio do bar , super vale andar com dinheiro na mão e economizar nos pedidos.
Reviver é o nome do bairro histórico.
São várias casas com azulejos que  remontam a época da colonização e cultura pulsante em cada canto.
Tem rua em homenagem a Catarina Mina, uma mulher negra conhecida por sua grande beleza que foi escrava na época da escravidão.
Vai encontrar também um atelier, na esquina da rua Portugal com um bar de reggae (em frente uma escadaria), com um senhorzinho com obras lindas de esculturas e carrancas. Mas só aceita dinheiro.
Recomendo dois dias para andar com calma. De dia curti os museus e a noite  beber uma geladinha em qualquer bar do centro histórico que tenha música ao vivo.

Vá na Casa das Tulhas lá tem todas as especiarias e temperos maranhenses. É de enlouquecer a culinária. Não pode deixar de experimentar o arroz de cuxá, influência da culinária africana e beber a água ardente Tiquira, de influência indígena e afrodisíaca.

 

 

Almoçar no restaurante antigamente, visitar a Casa do Maranhão (vai ter uma aula sobre Bumba Meu Boi), Casa do Nhozinho, Museu Histórico e Artístico do Maranhão ( 5 conto para entrar), Centro de Criatividade Odylo Costa Filho e a Casa as Festas que fala sobre as religiosidades africanas e festas populares (foi lá que aprendi a diferença de orixás, vodus, encantados e caboclos).

 

No Reviver também encontrei uma galera fina que tem produzido moda autoral de qualidade. Os pretinhos da @modadojoao , @marcosferreiragomes  e galera do @brechozineo_
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Maranhão também é conhecido como pequena Jamaica.  Há muito reggae de raiz pela região. E em São Luís você pode encontrar  aquele reggae para dançar agarradinho no Bar do Nelson e  no Chama Maré.
Além de sertanejo e samba todo domingo no Beach Bar na Praia do Calhau.
Ps: pra quem gosta de sorvete e tapioca vá no Sabor Tropical em frente ao mar da praia litorânea de Calhau ❤
VEM PRO MARANHÃO!

Minha primeira vez

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A primeira vez que sonhei  em viajar pra fora do Brasil,  era uma adolescente moradora  da periferia de Brasília e queria estudar inglês em Boston. Tudo que eu conhecia de Boston e de qualquer outro lugar dos Estados Unidos estavam em livros. Eram minhas primeiras referências de lugares incríveis para conhecer.

Lembro-me de chegar até minha mãe com uma revista de intercâmbio pedindo que ela pagasse um curso de inglês de um mês para mim em Boston. No fundo eu sabia que ela não tinha dinheiro, mas também queria convencer ela que não era uma ideia tão absurda assim. Ela poderia juntar dinheiro, parcelar a viagem, etc.

Minha mãe sempre achou que viajar era luxo. É o tipo de coisa que se faz quando tem dinheiro sobrando e é preciso estar sobrando muito dinheiro para não passar perrengue.

Por causa dos livros eu sempre me imaginava viajando por vários lugares e vivendo aventuras. Meu mundo sempre foi bem maior na minha cabeça.

Na época minha mãe falou que não ia pagar nenhuma viagem e cheguei a ficar bem mal.

Fiz drama.

Depois de uma semana ela disse que tinha uma surpresa para mim. Imaginei que ela teria mudado de ideia, pagado a viagem, parcelado em mil vezes e meu sonho realizado.

Ela me entregou um pacote grande. Pensei que era uma brincadeira para despistar.

Tinha que ter uma passagem ali!!!

Abri o pacote lentamente e me deparei com um casaco de frio para o inverno. Fiquei paralisada.

Decepcionada.

Ela me disse que aquele casaco era pra usar no dia que viajasse para os Estados Unidos.

Ela não tinha pagado o curso de inglês em Boston e nem planejava pagar, mas me ensinou naquele dia a trilhar meu próprio caminho. Realizar meus sonhos com meu próprio dinheiro.

No mesmo ano fiz um mochilão com dois amigos para o Chile, Argentina, Peru e Bolívia.

E um ano depois eu fazia minha primeira viagem sozinha para Nova York com o casaco que minha mãe tinha me presenteado naquele dia.

Até hoje guardo ele.

Viajar para mim nunca foi uma questão de luxo, sempre foi uma questão de direito. Um direito  que sempre foi negado a jovens  da periferia e negros.

Eu já era acostumada a viajar com os livros, mas viajar para outra cidade ou país é ver infinitas possibilidades de Mundos se abrindo na sua frente.  Gosto disso.

Hoje quando falo de todos os países que já conheci (dez!), e os que ainda quero conhecer, presencio diversas reações.

As que mais gosto vem de gente  com a história parecida com minha, da perifa. Gente que se sente de alguma forma representado e encorajado a se jogar no mundo.

É sempre engraçado também chegar a outro país e dizer que moro em uma favela. Existe sempre aquele estranhamento. “Pessoas da favela viajam?”, “Pessoas da favela tem dinheiro?”, “Pessoas da favela acessam esses lugares?” ,“Tem esse conhecimento?”, “Eles não eram carentes?”.

Adoro quando posso quebrar esses estereótipos sem falar muita coisa, apenas vivendo sem medo.

Sem medo de ocupar o mundo que é todo NOSSO apesar de todas as barreiras sociais e raciais.

Hoje percebo que viajar é a forma de aprender mais divertida. Você conhece lugares e culturas novas. Aprende com outras pessoas, multiplica conhecimento e amplia referências. E é também a forma de dizer que qualquer lugar pode e deve ser ocupado por jovens como eu.

Sigo acreditando que viajar deve ser um direito de todas as pessoas.

Talvez por isso que Favelados pelo Mundo é tanto uma parte de mim, como algo que acredito totalmente.